Série “PIANISTAS DE
JAZZ”
Algumas Poucas Linhas Sobre o Piano e os Pianistas
21ª Parte
(24)(a)
ERROLL GARNER Excelência sem
estudo
(Resenha
longa em 03 módulos)
Boa
parte do texto seguinte foi feito para trabalho conjunto com nosso
falecido amigo e Mestre LUIZ CARLOS
ANTUNES, o “Lula”, quando pensávamos em escrever livro dedicado e esse
gigante do teclado, ERROLL GARNER.
Escrevia
“Lula” que a admiração dele por GARNER
ocorreu no início da década de cinqüenta do século passado, quando o rádio
ainda cumpria seu primordial papel de difusor cultural. Certa tarde “Lula” foi atraído para perto do
rádio por uma música executada por um pianista de forma totalmente diferente do
que habitualmente se ouvia; colou os
ouvidos no aparelho, aguardando o anúncio do locutor e foi premiado: -
Ouvimos “Penthouse Serenade” com
o pianista Erroll Garner.
Naquela
época o comércio fonográfico ainda era incipiente, principalmente no que se
referia a LP’s, então escassos. Após
infrutíferas buscas, foi orientado por amigos a procurar as “Lojas Murray” (centro da cidade do Rio de
Janeiro), onde Jonas Silva, mais
tarde proprietário do selo “Imagem”,
importava discos sob encomenda. Por
sorte, lá estava o 10” da “Savoy” com o “Penthouse Serenade”.
Daí para
a frente, procurou adquirir tudo o que ERROLL
GARNER gravou, principalmente os LP’s lançados no Brasil.
Coletou o
máximo possível de informações, organizando arquivo próprio com entrevistas,
reportagens, “releases” e noticiário referente á estadia de ERROLL GARNER no Rio de Janeiro, quando se
apresentou no Teatro Municipal em
magnífica récita, ocorrida em 10 de julho de 1970 (viajou para São Paulo no dia
seguinte, onde realizou 03 apresentações de 12 a 15 de julho, retornou ao Rio
de Janeiro no dia 16 de julho, de passagem para temporada na Europa).
Entusiasmado
com a idéia de “Lula” e tendo ouvido, admirado e desfrutado da arte pianística
de ERROLL GARNER desde os
anos 50 do século passado, dediquei tempo para pesquisar a vida desse músico
excepcional.
Na
verdade e na sua aparente (nunca real) limitação de “aproach”, GARNER possuía amplo senso de organização sonora, o
que lhe permitia desempenho pianístico com sonoridade de grande orquestra, a
par de ter sido um dos grandes improvisadores do JAZZ.
Os que
tiveram a ventura de acompanhá-lo quase nunca sabiam o que seria
executado. Seu repertório,
constantemente renovado, era vastíssimo e mesmo quando retornava a um tema,
modificava o tempo, ou a harmonia, ou a tonalidade, conferindo execução
inteiramente diferente da(s) anterior(es).
Um dos clássicos exemplos disso são as 04(quatro) versões que deixou
registradas de “St. Louis Blues”.
Uma
escuta atenta e uma análise aprofundada do extenso patrimônio discográfico
que GARNER nos
legou, nos faz descobrir, sob a superfície luxuriante carregada de tons
rapsódicos, de arpégios e aparência barroca, um admirável domínio da vizinhança
de todos os estilos pianísticos: é um
pequeno universo do “piano-Jazz”.
Do
“stride-piano” de James P. Johnson e “Fats” Waller(escute-se a versão de GARNER em setembro de 1945, do clássico “I Know That You Know”), ao “boogie-woogie”(“Boogie Woogie Boogie” de dezembro de 1944) e
ao largo emprego dos “block-chords”(1953, “I’ve
Got My Love To Keep Me Warm”), GARNER está
sempre a vontade.
Mesmo não
sendo um devoto do “Blues” dos quais poucos registrou, ainda assim e como
demonstrou na gravação de “Way Back Blues” em
1956, possuía um “feeling” exato.
De resto
suas mãos se multiplicam: ataque
poderoso com as duas, impressionante rapidez e destreza com a direita(ouvir sua
versão de “Honeysuckle Rose” de
janeiro de 1951), inconfundível e característica defasagem(ligeiro atraso) da
direita em relação à esquerda(“Undecided” de
março de 1949 é um primeiro de múltiplos exemplos) e completa independência
entre as duas – o que lhe permitia combinar ritmos diferentes com absoluta
naturalidade(ouça-se o registro de 1956 para “But Not For Me”).
Permanente carga de “swing”, alimentando incessantemente sua
improvisação com inesgotável fantasia criativa, desenvolvendo ao infinito
qualquer melodia, mesmo se banal, enriquecendo-a com adornos, tessituras
rapsódicas, variações de timpre, até literalmente transfigurá-la.
Como
episódio esclarecedor das execuções de GARNER,
lembramos a exclamação de Jerome Kern após
escutar as peças de sua autoria, “Who” e “Yesterdays”, gravadas por GARNER em março de 1955(texto da capa do LP “Erroll”, EmArcy MG 36.069):
“..........será possível que tudo isso seja obra minha ? ? ? .............”.
É
importante lembrar as magníficas “introduções” de GARNER, sempre inovadoras e imprevisíveis mesmo
para ouvintes preparados, provocando a curiosidade e criando suspense até que,
quando ele atacava o tema com seu inconfundível “Garner beat”, o auditório não podia fazer menos que explodir em
ovação, descarregando a tensão acumulada e deixando-se envolver pela
impressionanate cascata de notas.
Simples é
ouvir e deliciar-se com a música de ERROLL
GARNER, mas complexo é analisá-la.
Transcrevemos a seguir em tradução livre e adaptada, uma pequena parte
do artigo de Mini Clar(revista
“The Jazz Review” de
janeiro de 1959, páginas 06 a 10), gentilmente cedido pelo “cjubiano”Carlos Augusto Tibau Ribeiro.
“........Analisar
a música de ERROLL GARNER envolve
o exame, não de um, mas de vários estilos de tocar. Talves mais que qualquer outro pianista de
JAZZ, ele sempre prosseguiu desenvolvendo seu estilo. De um início razoavelmente simples, GARNER forjou continuamente a produção de uma
crescente complexidade de idéias e de sons.
Sem importar o quanto seu desenvolvimento foi radical, ele sempre
manteve identidade musical marcante em todo o seu trabalho.
Três
influências(ou raízes) são identificáveis no estilo de GARNER, a saber:
(1) o Ragtime, (2) o Impressionismo
e (3) o “Stride-piano” do Harlem à “Fats”
Waller. As harmonias luxuriantes e as
sinuosidades sonhadoras, nas baladas em tempo lento de GARNER, vêm do Impressionismo; o balanço e a jovialidade nas faixas em
“up-tempo” derivam do Ragtime; a
vitalidade robusta e o humor insinuante que permeiam seu toque, vem de “Fats” Waller e da sua escola “Stride”. Observe-se que essas raízes são puramente pianísticas, sem influência de estilos
conseqüentes dos instrumentos de sopro..........................................Uma
aproximação bem satisfatória pra o estudo do estilo de Garner pode ser obtida
considerando: melodia / harmonia / ritmo
/ cores tonais / expressão emocional.
Melodicamente
GARNER utiliza cada recurso possível em
sua improvisação: as duas mãos executam
papéis melódicos(padrões para a mão esquerda, trabalho de mãos cruzadas e
freqüente alternância de fragmentos melódicos). Em execuções com um único dedo GARNER emprega notas de enfeite, apogiaturas
simples e duplas, arpégios ascendentes e descendentes, escalas cromáticas e
diatônicas, escalas pentatônicas e repetição de notas. A repetição constante de notas da melodia
é uma marca registrada de GARNER: notas ou acordes são repetidos duas ou três
vezes por tempo.....”
Erroll Louis Garner, artisticamente ERROLL GARNER, nasceu em 15 de junho de 1921
na cidade de Pittsburgh, na Pensilvânia., a mesma cidade natal de tantos e
tantos outros nomes importantes no JAZZ e nos espetáculos, que citaremos mais
adiante.
A família
era musical: o pai era tenor na Igreja e
um diletante do piano e de outros instrumentos(guitarra e bandolim em um
conjunto amador), que tocava de ouvido;
seu irmão mais velho, Linton, tocava
trumpete, piano e fazia arranjos, tendo chegado a colaborar com Billy Eckstine e Dizzy Gillespie; as irmãs
mais jovens, Martha e Ruth, estudaram piano. Em contrapartida GARNER teve um irmão gêmeo, Ernest, que para desespero da família nasceu
retardado e viveu muito tempo em um instituto de reabilitação psico-física.
Nesse
ambiente a educação musical do menino GARNER estava
garantida e ele logo demonstrou possuir audição e memória musicais
extraordinárias: o irmão Linton, em seguidas ocasiões, observou com
indisfarçável inveja que o menino, mesmo sem conhecimento musical, era capaz de
tocar qualquer música após ouvi-la uma única vez.
Sua irmã Ruth declarou a James M. Doran, biógrafo de GARNER, que
quando este estava tomando lições de música, ao invés de aprender a ler as
partituras memorizava os exercícios tal como a professora os executava no
teclado: depois os tocava sem
respeitar as notas do pentagrama, mas à sua maneira, com digitação “heterodoxa”
e interpretação toda pessoal. Segundo a
família GARNER com nada
mais que 03 anos de idade já executava com as 02 mãos trechos de Art Tatum, Teddy Wilson, Earl Hines e “Fats” Waller:
ouvia os discos e os reproduzia de ouvido.
Claro que
depois de cansativas e infrutíferas tentativas de ensinar a maneira “correta”
ao menino GARNER, a
professora recusou-se a prosseguir ensinando-o, até porque o interesse maior do
seu aluno era o beisebal.
Deixado à
sua sorte GARNER saiu-se
muito bem, se confirmada a versão de que já aos 10(dez) anos participava de uma
orquestra de jovens, a “Kan-D-Kids”, que se
apresentava regularmente na rádio local(emissora KDKA).
Aos
11(onze) anos o menino GARNER tocou
nos “riverboats” do Rio Allegheny.
Na escola
e entre outros que o encorajaram a “ir para a estrada”, destacaram-se seu amigo
Dodo Marmarosa e o
então bem jovem Billy Strayhorn(ambos já
então com sólida formação musical), assim como Fritz Jones(leia-se Ahmad
Jamal), que foi um de seus principais seguidores musicais.
Tantos
músicos como contemporâneos ? ? ?
Claro que sim; Pittsburgh foi
importante celeiro de figuras do JAZZ ou ligadas ao mundo dos espetáculos,
bastando citar-se, por exemplos e entre outros, os seguintes nativos:
Ahmad Jamal - Art
Blakey -
Babe Russin - Barry Galbraith -
Billy Eckstine - Billy May
- Billy Strayhorn - Bob
Cooper -
Christina Aguilera - Dodo(Michael) Marmarosa -
Dakota Staton - Eddie Safranski -
George Benson - Henry Mancini -
Horace Parlan - Kenny Clarke - Lena Horne - Mary lou Williams -
Oscar Levant - Paul Chambers
- Perry Como - Ray
Brown -
Roy Eldridge - Shirley Jones
- Stanley Turrentine -
Stephen Foster - Tommy Turrentine -
Victor Herbert....ufa!!
GARNER não se exercitava muito e era do tipo que
gostava de viver muitíssimo bem, mesmo sem possuir um piano à sua
disposição. A quem lhe perguntava qual
era o segredo de uma técnica, respondia:
“....basta sentar-me ante o piano e
pedir às mãos que façam seu trabalho....”
Sempre
será lembrada sua declaração(revista “Melody
Maker”, dezembro de 1952) de que:
“....se posso soar melhor sem ler música, porque deve mudar meu
estilo???... para mim é suficiente escutar, sentir a música -
deixo a leitura para os outros....”
A
carreira precoce a partir de então estava delineada e prosseguiria sem
obstáculos.
Prosseguiremos
nos próximos dias
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